Teste RT-PCR, considerado mais confiável para o diagnóstico. Foto ilustrativa: Reprodução / Vinicius Magalhães / Sesi

A falta de um resultado de testes para a infecção por coronavírus faz pacientes com suspeita da doença circularem pelas cidades em busca de respostas.

A recomendação é que as pessoas confiem nas orientações dos médicos, mesmo sem um resultado nas mãos.

Ouça as informações, com Narley Resende:

 

Resultados inconclusivos de testes para Covid-19 e desconhecimento sobre critérios de acesso a exames na rede pública têm confundido pacientes com sintomas.

Em todo o País, segundo dados do Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz, na última semana cerca de dez mil pessoas tiveram exames com resultados não conclusivos.

Isso representa 7,7% de todos os pacientes que fizeram testes RT-PCR em hospitais e unidades de saúde.

Além disso, o sistema público de Saúde de São Paulo, por exemplo, testa apenas pacientes com sintomas graves de Covid-19.

Muitas pessoas são submetidas a uma peregrinação para conseguir testes na rede pública.

Entre os que conseguem a requisição, há relatos de pacientes que, mesmo com pneumonia, receberam resultado “inconclusivo”.

Além de aumentar a angústia, isso faz com que os pacientes se exponham a novos riscos porque seguem circulando pela cidade em busca de atendimento e de respostas.

A Secretaria Municipal de Saúde da capital paulista informa que os resultados inconclusivos podem ocorrer por fatores como uma coleta de amostra em uma fase muito precoce ou tardia da infecção, falta de material suficiente no momento da coleta, mutação do vírus ou inibição do PCR.

Quando isso ocorre, a rede faz uma nova coleta de material para exame.

Uma das consequências da imprecisão pode ser o aumento no número de pacientes com síndrome respiratória aguda grave sem confirmação de causa.

Só na semana passada, foram diagnosticados 14 mil pacientes nessa situação, segundo o Infogripe.

É o caso de uma paciente de 28 anos que buscou atendimento na Ama Água Rasa, unidade de Assistência Médica Ambulatorial da Mooca, Zona Leste da capital paulista.

O irmão dela, que pediu para não ser identificado, conta que a família buscou internação para a mulher por 12 dias, a partir do dia 17 de agosto.

“Ela acordou com falta de ar e dor no peito. Chegou lá (na unidade de saúde) e a médica não quis fazer o exame de Covid. Na terça-feira ela acordou um pouco pior. Dessa vez, minha esposa foi com ela. Foi necessário conversar com a gerência do posto para que ela pudesse fazer o teste. Deu inconclusivo”, conta.

Com o primeiro teste inconclusivo e o segundo sem resultado, a família levou a paciente até o Hospital Estadual Geral Ipiranga, que tem um setor específico para doenças respiratórias, mas também NÃO tem testes de coronavírus disponíveis.

Antes disso, segundo registros da própria secretaria, a paciente voltou à unidade QUATRO vezes, nos dias 17, 18, 21 e 24 de agosto.

“Na recepção tem uma mesa com um cartaz dizendo ‘não fazemos teste de Covid’. Lá eles dizem que tem que procurar o posto de saúde. Já eram oito dias sem um resultado”, diz.

Em resumo, em dez dias, a paciente foi ao pronto-socorro cinco vezes – uma sozinha e quatro acompanhada; fez três exames de Raio-X do pulmão, em que foi constatada a evolução da pneumonia; e fez dois exames de coronavírus que foram inconclusivos, até que o último deu negativo.

Esse caso é um exemplo de que a falta de atendimento adequado pode expor ainda mais o paciente e outras pessoas ao risco de contaminação pelo coronavírus.

Só para pegar remédios gratuitos na Farmácia Popular, a família precisou ficar exposta por uma hora em uma fila.

“Naquela fila tinha idoso, gestante, criança…”, resume.

Resultados inconclusivos não são raros.

Recentemente, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o chefe de Gabinete Institucional do governo, general Augusto Heleno, passaram por essa situação.

Um levantamento feito em Minas Gerais em agosto mostrou que a cada dois exames, um dava resultado inconclusivo.

O professor de bioquímica e biologia molecular Emanuel Maltempi de Souza, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que três cuidados são decisivos para evitar a imprecisão dos testes.

Um deles é coletar material suficiente para testar a presença de vírus; outro é garantir que o exame seja feito no período correto; e o terceiro é assegurar armazenagem e análise corretas da amostra.

“No teste existe uma espécie de controle. Um gene humano que tem que estar presente. Se esse gene não estiver presente significa que a coleta foi mal feita ou então que a amostra se degradou. É uma das razões de o teste dar inconclusivo. Quando não tem a amplificação desse meu controle, digo que é bem possível que a coleta não tenha sido bem feita, ou se degradou ou meu processo de purificação do material genético do vírus falhou. Nesse caso, a gente pede uma nova coleta”, explica.

A epidemiologista Maria Amélia Veras, do Observatório Covid-19 Brasil, recomenda que o comportamento dos pacientes NÃO seja focado apenas no resultado do exame.

“Todo teste tem uma possibilidade de falha, uma possibilidade de resultados não conclusivos. Os médicos, em geral, aprender a interpretar os resultados aliando com os sinais, sintomas e situações de indisposição que a pessoa que está sendo testada relata. Para evitar tudo isso e essa angústia, é confiar. Muitas vezes o diagnóstico será confirmado mesmo com teste negativo porque a pessoa apresenta sinais e sintomas clínicos que são muito particulares e caracterizam essa síndrome que é a Covid”, orienta.

O teste RT-PCR é indicado para a fase inicial dos sintomas e o sorológico, para quem já tem sintomas há mais de uma semana.

Por telefone, a assessoria da Secretaria de Estado da Saúde, responsável pelo Hospital Geral do Ipiranga, afirma que a unidade também disponibiliza testes de coronavírus somente para pacientes em estado grave.

O protocolo, segundo a assessoria, determina que todos os pacientes passem por duas etapas de avaliação, com análise do histórico e exame clínico, e que somente o médico responsável pode prescrever o teste.

Mesmo sem a confirmação por meio de exame, todos os pacientes sintomáticos com suspeita de infecção devem ficar em isolamento em casa até que melhorem ou apresentem sintomas graves.

(De São Paulo, Narley Resende)

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