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Aline Pellegrino vê virada de chave no futebol feminino brasileiro

A reta final de 2020 foi bastante especial para o futebol feminino brasileiro, especificamente na Série A1 do torneio nacional. Com a chegada de Aline Pellegrino à coordenadoria de competições da CBF, a visibilidade chegou a um patamar ainda não visto no país até então.

Primeiro, porque houve a disputa dos jogos nos grandes estádios brasileiros, que já são utilizados pelos grandes clubes. Segundo, a implementação do árbitro de vídeo nas semifinais e finais.

Aline Pellegrino assumiu a coordenadoria de competições da CBF em setembro (Foto: Divulgação/CBF)

Em entrevista à BandNews FM, Pelle comentou que foi o momento perfeito para promover novidades na modalidade. “Eu já vinha conversando com os clubes. Apresentamos um projeto ao presidente Rogério Caboclo do que poderíamos fazer na segunda fase pelo nível que a competição vinha mostrando. A gente tinha, pela primeira vez, um torneio em nível muito alto. Tivemos a entrevista coletiva da final, o patch especial da decisão, melhores momentos, craque da partida. Fizemos todo esse pacote e chegamos com números muito bons que mostraram que coube tudo aquilo”, conta.

“Queremos replicar essa segunda fase em 2021. Foram avanços importantes, alguns clubes ainda não tinham jogado na principal arena e acho que isso fez toda a diferença. Em um momento em que estamos sem público, quem estava vendo pela TV ou internet via futebol e não futebol feminino. Um bom jogo, em um bom palco, com patrocinadores, qualidade, e acho que o retorno de audiência, de visibilidade, foi muito bom”, complementa.

Pelle começou a trabalhar na CBF em dezembro do ano passado e não parou um minuto. “Eu brinco que não consegui esquentar a cadeira porque ou eu estava andando pelos corredores da CBF ou pelos estádios do Brasil. Os quatro anos de Federação Paulista [foi coordenadora de futebol feminino] me fizeram crescer muito e entender como funciona uma entidade que organiza competições, os departamentos. Então, era só fazer a integração com as novas pessoas.”

A final da Série A1 do Brasileiro Feminino, que teve o Corinthians como campeão sobre o Avaí/Kindermann teve quatro transmissões: Além da BandTV, houve jogo na ESPN Brasil, no Twitter da CBF e na rádio CBF. Segundo Pellegrino, isso mostra que o futebol feminino está consolidado. “Foram 40 anos de proibição e a gente chega agora em 40 anos de desenvolvimento, digamos assim. Muito do que a gente olhou depois desse período era invisibilidade do futebol feminino. Não quer dizer, óbvio, que esse nível técnico que estamos entregando agora não era o mesmo há 20 anos, mas acontecia também, dentro de um outro processo, de outra perspectiva e ninguém falava nada. Então, esse final de 2020 mostrou a virada de chave do futebol feminino e da cadeia produtiva, dos patrocinadores, da TV, da rádio, das redes sociais. Agora as pessoas entenderam que é só futebol e que o futebol feminino pode entregar tudo o que eles estão acostumados a ver masculino”, destaca.

A CBF tem o planejamento de promover campeonatos regionais, além das duas divisões nacionais e dos torneios de base. Esse projeto, apesar de pronto, ainda não tem data para ser implementado devido às incertezas pela pandemia do coronavírus. “Agora é um momento de entender qual será o melhor momento de tirar do papel e colocar em prática. Este ano vai ser apertado, já está em cima, não sabemos como vão ser as restrições, pensando na pandemia, no protocolo. Não temos que ter pressa, mas já está quentinho no forno.”

Confira outros temas da entrevista:

Qual o trabalho de acompanhamento da CBF com os clubes?

A gente se aproxima muito das federações e dos clubes quando vamos começar uma competição; dividimos as responsabilidades. Existe um processo, o clube tem a relação com a atleta, com a federação, a federação tem relação com a confederação. A hierarquia não pode ser ultrapassada. Nas competições, a gente tenta fazer com que todos esses atores trabalhem juntos para que a gente atinja o principal resultado. Então, é um trabalho de proximidade, porque tem vários pontos da rotina da competição que a CBF é inicial do processo, mas estamos o tempo todo em contato. Os clubes já apresentam relatórios através das federações para a CBF e tem um departamento específico que cuida disso. Qualquer coisa que saia do eixo eles trazem para o departamento de competições e vamos ajustando, temos um canal muito bom com todos. Todos precisam melhorar a gestão, seja atleta, da carreira dela, seja do clube, das federações. Enquanto confederação, buscamos excelência para que o futebol feminino caminhe a passos largos.

Você entende que é preciso investir ainda mais nas categorias de base para que as atletas não comecem a formação no futebol muito tarde? No masculino, por exemplo, há o acompanhamento desde 9, 10 anos…

Essa questão é primordial e esse é o ponto. Hoje, quando a gente pensa nas competições de base, nos cenários nacional e estadual, temos muito ainda o que avançar. O grande gap [atraso] é que precisamos de um número maior de competições de base, para ir mudando esse cenário porque algumas meninas perdem essa etapa da formação técnica, da tática e da física, e, quando conseguem um clube, já perderam o começo do processo e isso influencia. Ainda hoje acontece o que aconteceu com a minha geração, que a gente estava com 15 anos e jogando com uma mulher de 25, 30 anos. As competições de base começaram em 2017 e foram melhorando muito, mas temos cada vez mais que dar essa atenção, para que os clubes tenham categorias adultas e participem das competições de base.

Houve uma dúvida muito grande quando veio a pandemia sobre o futuro do futebol feminino. A modalidade havia crescido bastante em 2019 e esperava-se uma evolução ainda maior esse ano. Houve prejuízo para a modalidade, no sentido de patrocinadores, investimentos em geral?

Se a gente fizer uma análise fria do futebol feminino, as coisas cresceram, melhoraram. Lembro no começo da quarentena, todo mundo tinha muitas dúvidas, me questionavam se ia acabar. Falavam de não ter público, mas nunca tivemos público. ‘Ah, vai impactar no patrocinador’, a gente não tinha muitos patrocinadores. Mas, depois de tudo o que passamos, me deixa uma certa forma com bastante certeza do momento que estamos vivendo e do quanto esse produto já está sólido. Porque se a gente olhar para o que foi 2019 – óbvio, se não tivéssemos passando por isso, teria sido ainda mais fantástico, então que bom estamos escalonando passinho a passinho -, mas entregar o 2020 dessa forma dá uma solidez muito grande do que foi 2019 e, mesmo diante de toda dificuldade, patrocinador chegou, parceiro chegou, números da internet triplicaram… Então, o futebol feminino saiu desse 2020 muito fortalecido.